24 outubro

Under the Twilight - Dia 1

Under the Twilight é um jogo solo de diário onde você vive na pele de uma pessoa lutou contra um grande mau, o Uhmio, e venceu. O tempo passou, o mundo seguiu em frente, mas você não, pois o Uhmio não corrompe apenas o corpo, mas também a mente, e você já não sabe mais o que é real ou não.

Esse jogo gira em torno de recontar a sua história, a sua aventura, e descobrir se você realmente é quem você acha que é, e se viveu o que acha que viveu, ou se o Uhmio venceu e ele, mesmo derrotado, conseguiu destruir a sua  mente. É um tipo de jogo que acaba tocando em tópicos sensíveis, então é sempre bom dar um tempo quando a própria escrita incomodar.

Pra jogar UtT é preciso apenas do jogo e um baralho de tarô completo. Durante a partida, a cada 'dia' da aventura, você vira uma de dez cartas de arcanas menores (que são como um 'mapa') e uma carta de arcana maior (que é um oráculo). As cartas combinadas são 'substância' pra você criar uma narrativa sobre o que aconteceu ou está acontecendo com sua personagem. Dependendo também do valor da carta, a lembrança que você está revivendo pode ser sua ou pode ser uma ilusão ou corrompida pelo Uhmio. No final do jogo, você confere quantas lembranças são suas e quantas não são pra concluir a sua história como uma espécie de 'vitória ou fracasso'. Tem alguns detalhes a mais, mas não vou me aprofundar pra não ficar um post muito longo.

Há algum tempo comecei a jogar Her Odyssey e compartilhar aqui no blog, mas achei que seria legal compartilhar também uma partida de um jogo que eu criei. Esse especialmente é um dos mais recentes e profundamente narrativo, sem testes, status, etc, por isso acho que pode ser interessante, principalmente pra quem tem curiosidade sobre RPG e quer conhecer mais.

Se você quiser ter uma cópia de Under the Twilight, é só clicar aqui. Por agora tem apenas a versão em inglês disponível, mas logo eu tento compartilhar uma tradução. Você pode comprar a sua cópia do jogo, e se você não puder pagar, tudo bem, é só pegar uma cópia comunitária. E se você quer saber mais sobre o que é um jogo de diário, eu fiz essa minizine falando mais sobre isso.

Sem mais delongas, vamos lá?


Nota: o jogo instrui pra começar respondendo algumas perguntas, eu gosto sempre de, ao invés de responder diretamente, criar um contexto. Então, bora!

Dia 1 | 2 Ouro + IX O Heremita

Ano 3 - Era do Sol

Eu nunca planejei escrever memórias, sequer planejei revisitá-las. Eu sequer imaginei que sobreviveria. Quando peguei na espada pela primeira vez, foi pra não ser morto. Ela era tão pesada, que dei sorte de cair com ela inclinada quando meu tio tentou me espancar novamente... e caiu em cima dela. Na maioridade, parecia que minha vida seria fria como a lâmina, até eu me apaixonar pela arte. A primeira vez que chorei adulto, foi em uma galeria de rua, foi um choro que rasgou por outro sentimentos, e eu soube que não, eu não era como a lâmina, e explorei isso a cada vez que eu pegava a tinta e o pincel e me permitia fazer algo bonito. Isso acontecia, às vezes, nos intervalos da guerra. Um tempo precioso, que não volta mais. Quando o Uhmio finalmente caiu, essas lembranças se tornaram algo diferente... não estou mentindo, mas não sei se estou te contando a verdade. Eu nunca planejei escrever memórias, muito menos as que não parecem minhas. Mas se eu não fizer... como sei que eu sequer existi? Então, se você acabou de pegar esse diário, não estranhei se nada fizer sentido, pois acho que nunca fez.

Nunca vou te ouvir... mas pode me chamar de D.

***

Parece que foi ontem que passei por essas terras. Mas ontem, havia vida.

Eu não tenho certeza se foi aqui que me curaram depois do primeiro cerco... ou do segundo... malditas criaturas das sombras, foram tantos conflitos, tantas feridas, que eu não me lembro mais.

Mas lembro do cheiro de trigo e essências. No final dessa rua, havia um mercado, todos paravam lá, era um lugar curioso, e que estava em um lugar curioso, no encontro da entrada do vilarejo, com a sua rua principal e a entrada do porto. Por isso, todos paravam lá.

Subindo a rua, lembrei também do cheiro das tortas, era quase o Festival da... do Morango? Ou da Cerveja? As pessoas iam para lá e para cá, tínhamos vencido a batalha, eles podiam respirar aliviados, por um tempo. E apesar das infinitas possibilidades, eu tenho certeza, que pelo menos eram tortas doces.

A casa da Talia ficava em uma das vielas. Era hábito os jovens saírem de casa, mas morarem nesses pequenos aglomerados de casebres que criavam inúmeras passagens secundárias. Não mais do que três andares, não acredito que suportaria, e eles tinham essa superstição de que o exagero atrairia o mar. Talvez por isso as paredes leves de madeira, nada de barro. Era inteligente.

Fez calor durante aquelas semanas, e por mais estranho que parecesse, aquele vilarejo esquisito fazia a brisa do mar circular por todos os cantos, reduzindo a temperatura e perdendo fôlego quase no Grande Portão. Era engenhoso, estranho, mas engenhoso.

A Talia me levou também nas lojas de livros, de artesanatos e no ferreiro. A pequena conhecia todo mundo, e todos conheciam ela. Eu amei ela desde que acordei nos portões do vilarejo com ela tentando estancar o sangramento no meu abdômen e gritando por socorro. Talvez ninguém tivesse me notado, e eu morreria, se não fosse por ela.

Dois longos e bons anos tive com ela. Nunca tive filhos, mas sentia que ela era parte de mim. Durona. Vivia sozinha desde os dez. Era habilidosa com cerâmica e sempre soube se virar. Ela comprava a cerâmica no mercado do final da rua.

Estranho, pois agora que eu estou aqui. Não lembro como ele era. Eu parti, outra batalha veio. Acho que nunca me senti tão acolhido quanto aqui. E hoje, nunca me senti tão sozinho. Sequer as ruínas conseguiram sobreviver direito. 

Me pergunto se alguém ainda se lembra deste lugar como eu.

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