As palavras da velha não eram para assustar, mas enriquecer a criança com fragmentos daquilo que fazia sua cultura forte, suas histórias e origem. A menina se revirava com a cabeça sobre o colo da anciã, que não perdia o fôlego. A noite estava agitada, o vento vindo do litoral prometia uma tempestade. As luzes das fogueiras fora da oca atravessavam pelas frestas da madeira e ilustravam a narrativa com formas abstratas.
07 março
Reminiscência
As palavras da velha não eram para assustar, mas enriquecer a criança com fragmentos daquilo que fazia sua cultura forte, suas histórias e origem. A menina se revirava com a cabeça sobre o colo da anciã, que não perdia o fôlego. A noite estava agitada, o vento vindo do litoral prometia uma tempestade. As luzes das fogueiras fora da oca atravessavam pelas frestas da madeira e ilustravam a narrativa com formas abstratas.
Há pétalas sob o sol
Tão acolhedor era o cair da tarde sobre Beladona, que o sol e a lua pareciam dançar exibindo suas belezas sobre as ruas encharcadas naquela época do ano. As folhas amareladas das árvores que tentavam resistir ao inverno criavam uma malha macia e delicada sobre o chão, cobrindo o pouco do verde que restava e trazendo nostalgia ao coração dos mais velhos e encanto para os mais novos. “É a voz dos espíritos cantando enquanto buscam seu caminho.” diziam os mais velhos quando o vento chiava passando pelas frestas.

08 outubro
Santo Amaro
25 abril
Um Conto do Mar
Durante uma sessão de tatuagem, o velho Eli confessa para seus amigos
uma de suas desventuras, narrada com tinta e agora, com suas palavras.
Quando jovem, ele vivia em uma pousada lavando pratos, servindo mesas
e tatuando todo o tipo de pessoa, de simples mercadores aos piores
bandidos. Sua vida vira de cabeça para baixo quando ele mata um
oficial da marinha, em legítima defesa, mas em Meradosia, esse é um
detalhe que não importa, pois Eli é negro.
Tomas, um
experiente marinheiro que se tatuou com Eli mais cedo naquele dia, o
ajuda a escapar, levando-o junto em uma jornada pelos mares em busca
de uma criatura mitológica: o dragão-do-mar.
Eli irá
aprender a trabalhar no navio, conhecer pessoas tão diferentes quanto
o sol e a lua, assim como descobrir uma paixão. Mas o destino também
lhe ensinará sobre humildade, amizade e a dor.
Nanquim
Durante uma noite na biblioteca da cidade, enquanto estudava anatomia de animais e desenhava criaturas fantásticas em seu caderno, ela foi surpreendida por uma garota que se aproximou de surpresa, após uma breve conversa, a garota parte, mas deixa um bilhete escondido entre as folhas de desenhos com uma mensagem misteriosa: Rua Olavo, 23, 23, 23.
Após desvendar o quebra-cabeças, Jon mergulha em um mundo de esquisitices, tendo seus sentimentos e emoções postos a prova diante de um horror inesperado e sobrenatural.
Massala
Nesta desventura futurista, enquanto a cidade está sob ataques constantes de kaijus, Massala irá explorar a cidade e visitar velhas amigas em buscas de respostas, mas não se engane, em um mundo cótico, em quem realmente ele pode confiar?"
Sofia
26 abril
A chuva
24 março
O Nômade
21 setembro
A Fera e a Rosa
Há muito tempo, em um lugar não tão distante, havia uma Fera. Possuía o corpo coberto por pelos escuros e olhos negros como a noite. Passava seus dias em estado agoniante, o mundo era pequeno para ela, sua mente estava lotada e exausta, e não conseguia mais dormir, por vezes, mal sabia distinguir a realidade da ilusão. Perdera peso rapidamente, pois a insônia consumia seu descanso e lhe privava da fome. Seu coração parecia uma tempestade em alto mar, confuso, negro, solitário, agitado.
25 maio
Nada mais
Ela estava a minha frente, me encarando com um olhar profundo. Cai de cabeça naquele mar esverdeado, claro e pulsante, eu estava hipnotizado. Flagrei alguns fios de seu cabelo dourado voando sobre seus cílios e me distrai deixando meus olhos me guiarem até seus lábios, carnudos, avermelhados, convidativos. Seu nariz era bonito e suas bochechas rosadas, a pele parecia macia, e meu coração disparou.
Por alguns segundos, nós travamos, um no outro, e quando nos demos conta, aquilo pareceu embaraçoso e nossos olhares se desgrudaram, perdendo-se no ambiente. Eu tentava evitar, mas a cada movimento, eu me sentia forçado a observá-la, senti vontade de desenhá-la, escrevê-la, de tocá-la, meu lado artístico ressoou de formar indescritível, e uma inspiração me abraçou. Notei que ela se esforçava para não me encarar, mas em momento de distração e pensamentos aleatórios, eu a pegava, de canto de olho, me observando, estudando, desejando.
Ela disfarçou bem. Puxou um livro de dentro da bolsa, e se pôs a ler, mas não antes de me encarar novamente. O livro possuía belas ilustrações na capa e contra capa, de um título ligeiramente familiar A Última Quimera, um título chamativo, poético. Passamos mais alguns minutos naquele jogo de encontros e desencontros de olhares, nas idas e vindas da sua atenção sobre aquelas páginas, mas aquilo não durou muito, nos aproximávamos do terminal, e toda aquela admiração, aquela paixão secreta que fervilhou em nossos corações, por um momento tão repentino e breve, estava para ser apagada, cada um seguiria seu rumo, e as palavras que poderiam ser trocas, e nunca existiram, não teriam chance alguma de existir, de uma vez por todas.
Fitei-a enquanto ela puxou a página anterior a que estava lendo e a dobrou. Um sentimento oportuno me contaminou. Foi minha chance, foi um convite, não poderia ser ao acaso, não poderia ser coincidência. Ela se levantou, preparada para desembarcar, e logo mais pessoas vieram próximo a mim, bloqueando minha visão a aquela sedutora desconhecida. Olhei para todos, tentei compreender aquele momento, tentei imaginar se aquilo era o que chamavam de destino, e se a escolha que eu iria fazer, era uma das entrelinhas que preenchem o que chama de vida, eu só tinha dois caminhos a trilhar, tornar aquele momento algo apenas para eu guardar, continuar sendo uma pessoa simples, cuidadosa com si mesma, reservada ao seu próprio mundo, ou viver o que a vida me dispôs.
Avancei, passando por uma, duas pessoas, e logo eu estava ao lado dela. Senti o cheiro do seu perfume, meus olhos brilharam com a proximidade que dividíamos, e então ela me encarou. Meu coração apertou e algo me deixou brevemente sem reação. Esbocei um sorriso encabulado e levei a mão direita ao bolso de trás.
- Me desculpe a ousadia - tomei sua atenção por completo -, mas isto é para que você não precise mais dobrar as páginas do livro - completei puxando do bolso um cartão de visita que costumava entregar aos clientes das minhas artes.
- Ah! Obrigada! - Ela respondeu em um tom delicado, sua voz era doce, ela sorriu e um sentimento bom se aconchegou no meu interior. Observei-a saindo pela porta, pensando que um dia, talvez acontecesse de nos vermos novamente, e quem sabe aquilo poderia ser a oportunidade para conversarmos. Ela parou a alguns metros da porta e ficou observando o cartão. O ônibus ficou parado, o motorista estava adiantado.
Encostei-me contra a janela, me distrai da mulher e dei atenção ao meu mp3, pois naquele momento a música havia mudado, e um som inspirador e rico em sentimentos ecoou pelo fone e desvirtuou minha mente. A imagem da mulher estava fresca, então fechei os olhos para observá-la novamente, admirá-la, pude até sentir seu cheiro e logo me dei conta de que o cheiro estava próximo, o cheiro estava a minha frente. Abri os olhos, e a imagem daquela bela mulher não se desfez. Ela se aproximou, e o tempo ficou mais lento, levou suas mãos sobre meu peito e seus lábios encontraram os meus. Um beijo intenso, perfeito e estranho.
Ela se afastou, sem dizer palavra alguma, deu as costas e seguiu seu caminho. A porta se fechou e eu fiquei ali, imóvel e com o êxtase daquele momento. Foi filosófico, poético, foi real e eu entendi, interpretei. Aquele beijo não foi o acaso, não foi nem o destino, foi um fato, o fato de que ambos desejávamos aquilo. Eu sabia que na mente dela, aqueles pensamentos também se instalaram, aquele beijo teve que acontecer, ele poderia ser o melhor beijo de nossas vidas, poderia ser o beijo mais memorável, poderia ter criado o momento que ficaria para sempre em nossas mentes, poderia ser o início de um sentimento maior, o início de uma amizade, o início de um lance, ele poderia linkar nossas vidas, ou simplesmente ser um beijo único e nada mais, mas de uma coisa nós dois certamente tínhamos certeza... Aquele beijo foi real.
14 fevereiro
O Bosque de Cerejeiras
O Bosque de Cerejeiras
Em meio à guerra, o samurai não teve a força que devia, matou o pai, matou a mãe e por fim arrancou, com uma passada cruel de sua lâmina cortante, a cabeça do irmão... O menino estava no armário, e suas lágrimas escorreram ardidas e tardias, assim como o sangue de sua família, que lavou aquela terra. Ele saiu escancarando as portas do armário, vestindo uma máscara demoníaca, e avançou sobre o samurai. O pequeno possuía o corpo frágil e esquelético, dentes brilhantes e cabelo liso. O guerreiro por sua vez não recuou e não atacou, apenas observou, e observou... Por fim, golpeou o menino na cabeça e o largou desmaiado dentro da casa, saiu e ordenou que aquela terra maldita fosse queimada por inteira...
- O sol já vai se por... - Resmungou o samurai moribundo ao escorar-se em uma cerejeira e apoiar-se sobre sua espada. Ele se esforçou para caminhar por mais alguns metros, sua armadura estava aos pedaços, coberta por sangue frio e alheio, e de sua face, via-se apenas uma longa cicatriz do lado esquerdo que cortava até a sobrancelha e abaixo um olhar profundo de um homem que já descera ao inferno e provara do pior castigo.
Junto com ele, uma brisa forte caminhava e o ultrapassou. Ele olhou para trás, e ao fundo do bosque, lá longe, flagrou uma leve mancha negra e logo o cheiro de carne queimada o alcançou. Ele elevou o braço sobre a face, evitando que seu estômago se embrulhasse ainda mais do que já estava.
- Morte, morte, morte... - repetia o samurai com sigo mesmo. - Ó Grande, deixe-me redimir-me com meus pecados, pois minha honra já está enterrada, minha alma coberta por sangue inocente, ao menos uma vez, me guie para fazer o certo.
O sol não demorou a se esconder, mas logo a frente ele flagrou uma jovem, deitada sobre um gramado fino, era a saída do bosque e o pequeno terreno que se seguia, dava para a ponta de um precipício. Ele apressou-se o máximo que pode e ao alcançar a jovem, tratou de conferir se ela estava viva. A respiração estava fraca e o olhar entreaberto estava distante.
- Não! Mais morte em minhas mãos... Se eu sou amaldiçoado, leve-me de uma vez! - Exclamou o samurai furioso com o destino.
Ele ergueu o corpo semimorto e o carregou por um curto espaço, deitou-o apoiado em uma pedra e passou dois dias a cuidar da jovem. Dia e noite ele a observava sem encarar totalmente, travando uma luta interna com sigo mesmo até que na quarta noite, ao retornar de uma caçada, o corpo não estava mais lá... A jovem desaparecera e deixara para trás apenas a fogueira que o samurai havia acendido. Ele se desesperou, sentiu um forte desconforto em seu peito, mas logo se acomodou e se pôs a comer.
A noite passara duramente, e por todas as horas, ruídos assustadores, gritos e "culpado!" ecoaram de dentro do bosque. O manto negro da noite dava sua última graça e o samurai finalmente descansava, quando um estalo o despertou, ele se apoiou sentado, tentou pegar sua espada, mas sua mão passou no vácuo... Ela sumira. Seu coração acelerou e uma cena se repetiu na sua cabeça, de forma semelhante e ao mesmo tempo distinta.
Um vulto saiu das sobras do bosque, vestindo uma máscara demoníaca... Caminhava sutilmente em direção ao samurai, o qual permanecia imóvel. Seus passos eram suaves, o corpo aos poucos foi se expondo, a máscara já se mostrava completa e logo seios avolumados se ergueram na luz, o corpo afinou na cintura e alargou novamente no quadril, o samurai observou a beleza esfíngica da mulher que caminha em sua direção, pasmo, perdido, inquieto e sem reação. Mais alguns passos, ela estava a menos de três metros do guerreiro, ele esboçou um sorriso perverso que se converteu em uma expressão de terror. De suas costas, a mulher puxou uma lâmina, desembainhando-a, a espada do samurai.
Ele se desesperou e tentou correr, mas a mulher ao vê-lo virar-se e tentando arrastar-se, lançou a lâmina contra seu tendão, um grito ecoou alto. O samurai virou-se atordoado com a dor e encarou com temor a mulher misteriosa.
- Sangue do meu pai! - exclamou ela se aproximando e cravando a espada no ombro do guerreiro. Ele gritou. - Sangue da minha mãe! - puxou a lâmina e cravou no outro ombro. Ele gritou ainda mais alto e as lágrimas começaram a escorrer. - Sangue de meu irmão! - puxou a lâmina na face, marcando outra cicatriz no samurai. Aproximou-se um pouco mais, ajoelhou-se diante dele e o encarou. O samurai tremeu reconhecendo o olhar que transparecia pelos furos da máscara. - Pelo sangue da minha terra amaldiçoada. - Finalizou ela, levou a lâmina ao pescoço do guerreiro e com um deslize, o decapitou.
A cabeça rolou pelo gramado fino, o sol despertou iluminando o cenário mórbido e dando-lhe um novo contraste. As cerejeiras se agitavam com o vento que de leve tocava a face de suas folhas magnânimas. O bosque exibia apenas suas cores deslumbrantes, pois um silêncio breve pairava novamente sobre a região. Não era um silêncio comum, era diferente de uma sala falante que logo se silencia, era mais doce. Não era um silêncio comum, era diferente de uma rua movimentada que a noite se esvazia, era mais sereno. Era o silêncio da morte, da sua passagem, da sua visita, era o silêncio da vingança, da satisfação, era o silêncio da dor, da tristeza... Era o silêncio da guerra.

