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17 março

Quero escrever sem escrever

Estou num hiperfoco com zines, é. Não é ruim, fazia um tempo que eu tava buscando novas formas de me expressar, me divertir, e que diria que bagunçar e dobrar um A4 seria tão interessante.

Desde que me afastei da tatuagem, tenho buscado loucamente um novo "fazer manual", e como os jogos que eu crio pra gringa tem um formato semelhante... why not?

Semana passada eu fiz essa experiência com colagens, pois queria criar algo, mas estava meio cansado pra escrever algo... 

Na verdade tenho me perdido muito - sim, tempo - em pesquisas, e entrando em loops onde o pesquisar e arquivar referências tem sido mais interessantes do que chegar em algum lugar.

01 março

Luto é poesia

hoje estou de luto
uma parte de mim morreu
uma parte tão inocente que é indescritível
é o amor incondicional perdido
e eu quero gritar, compartilhar 
pois dói muito carregar isso sozinho

mas é inútil
assim como essas palavras
como uma porra de poesia 

26 janeiro

Ainda tô aqui


Quando me perguntam o que é o amor...

Para mim são todas as vezes que cozinhei receitas malucas só para te ver animada
e até suas caretas valiam a pena.

Foram as horas, longas horas acordado contigo assistindo coisas
que nem me lembro em detalhes, pois estava lutando para não pegar no sono
antes do sol nascer e aproveitar um minuto a mais te vendo sorrir,
chorar ou reclamar do roteiro ou qualquer coisa.

São todas as vezes em que ofereci ajuda,
mesmo sabendo da sua capacidade,
simplesmente por eu querer dividir o seu fardo,
pois não precisamos carregar tudo sozinhos na vida
e espero que você descubra isso...
mas ainda me admiro com sua força e determinação.

Quando me perguntam o que é o amor,
para mim é a capacidade de guardar no peito tantos bons momentos
e saber que também cresci com os ruins, mesmo quando você partiu...
e ainda assim eu te amo... pode ser esse amor ou aquele,
mas ainda tô aqui, e sei que você tá aí.

18 novembro

Despedaços

Dizem que nada é como a liberdade, mas poucas coisas parecem tão absurdas quanto pensar em liberdade.

Todas as noites meu suor azedo é um repúdio ao ontem, amanhã e ao agora, enquanto a liberdade se desfaz em uma corrente que me prende em uma realidade incapaz de preencher meus vazios.

E eu tento, com futilidades.

19 abril

Sexta Santa


Eu acordei durante a madrugada. Não tenho certeza se sequer dormi ou alucinei de exaustão.

Caminhei por algumas horas de manhã... me despi da solidão e sai. 

Vi o sol nascer e senti meus pés começarem a doer até a fome incomodar mais do que os pensamentos.

Havia uma bolsa de agonia esmagando meus pulmões, e aquele desafio constante de aceitar que o hoje é a única verdade, que o ontem não existe mais e o amanhã é apenas um delírio.

Não consegui chorar quando lembrei do meu melhor amigo e do calor da presença dele, algo que nunca mais vou sentir. 

Foi agridoce, pois apenas ele me fazia sentir bem quando dizia que "tudo vai ficar bem". Fora o sangue, acho que esse foi o único amor que conheci.

Apenas ecos. Eu me sustento sobre ecos. Eu me alimento desses ecos. Uma reprogramação constante da mente para não deixar que tudo simplesmente acabe. 

O esforço mor para nadar contra a correnteza que sempre me abraça com carinho em seu convite para a escuridão.

Queria chorar por coisas bonitas. Mas estou aqui, sendo engolido pelo tempo em tantas realidades distintas, que não sei mais o que é prazer ou o que é dor.


01 março

Um canto


Há um canto na minha casa
O sol nunca cobre ele todo
Não é coberto, é apenas um canto
As sombras das paredes em V são duras
Duras como a solidão brutal desse canto
Não tinha nada nas paredes
Nunca teve nada no chão, além do chão
Às vezes eu
Esse canto é e não é parte da casa
Pois da casa vem lembranças e nostalgia
Do canto, é apenas um canto
Tem vezes em que junta um tico de casca ali
Tinta véia que cai da parede úmida
Pois o sol nunca cobre ele todo, o canto
De noite, parece que as coisas ocultas se arrastam pra lá
Tem algum mistério agridoce aqui
Pois ele deixa de ser da casa, é outra coisa
Eu vejo algo colado nesse canto
Mais escuro que a escuridão
Eu ouço algo colado nesse canto
Menos silencioso do que a noite
Eu... Sinto a parede descascada arranjar meu braço
O chão frio congelar meus pés
E a solidão engolindo meu corpo nu
Minha pele arrepia e naquele canto
EU ME PERCO TODA NOITE
Estou colado nesse canto
E não consigo gritar
Amanhã coloquei flores ali
Nunca vi vida viver ali
Mas elas viveram
São flores de morte
Esse canto também é irônico

***

Imagem registrada em algum momento entre 2010/14.

23 fevereiro

Maldito concreto


Não é noite, mas o brilho melancólico do céu turva com o cheiro da chuva
Sei que vai chover, não preciso olhar para cima, sinto na minha pele
Mas somos curiosos, e olho assim mesmo, nuvens carregadas
apenas, nuvens carregadas
O cheiro da chuva poderia estar menos forte se eu não tivesse olhado
Nunca vou saber, mas na frenesi do maldito cotidiano
Na melancolia da água que está por vir, para lavar as nossas almas
Tomando a minha atenção, meu olhar, há o poste
Química e minerais, um monumento singular da sociedade contemporânea
Orgulhosa por cada centímetro desse amaranhado de cobre e plástico
Orgulhosa por cada tensão que distorce a sua natureza

Esses nós, agora, no escuro
São nós como da garganta
Não de hoje ou de ontem
Mas de décadas de desespero sem grita
Décadas de feridas sem chora
E dentro desse maldito edifício de cimento
O coração pulsa, ou pelo menos tenta

Eu deveria agradecer a chuva
Agradecer as plantas que resistem na Babilônia
Mas que que se foda,
Enquanto sento, respiro, choro, grito, gargalho, me afogo
Vendo a perfeição queimar até o chão

—Imagem do autor (02/2025)

04 janeiro

Colar de memórias

O tilintar tirou meu sono
Pequenas memórias que cantavam ao tocar as pedras no fundo da caixa
Viagens a lugares que não existem mais, a momentos que não existem mais
Mas nunca foi razão que busquei ao lembrar

Há também uma força quente
Que envolve essas memórias em amor e manipula como se fossem pedras em um colar ou qualquer coisa assim

Tudo bem, estou dormindo agora

***

02 janeiro

Quebra ondas

As ondas que quebram na costa 
Violentas como o passado que se esmigalha por detrás dos olhos
E o mar puxa furioso
O pouco que resta de suspiros, mas deixa a dor do tempo implacável
Enquanto o sol se põe no horizonte
As pegadas na areia se transformam em melodias esquecidas
Melodias esquisitas, esguias, murmúrios, lástimas, lágrimas, sangue

As pegadas então queimam
De fora para dentro, até os ossos
Além dos ossos
No vazio, aquele profundo e perdido

As brisas encobrem os suspiros
As brisas encobrem os soluços
As brisas encobrem as lembranças
E quando o mar toma de volta o que é seu
Não há mais nada do que um dia existiu ali
Ao menos, que seja doce

***

01 janeiro

Ao chegar ao chão

O sol negro planta escuridão
E o luar vermelho jorra sobre as planícies
Há um vazio nesse meio, um espaço em branco
Mas preenchido de cores indistinguíveis
O cheiro de medo, destino, e fascínio... Desespero
Essas amarras puxam meus ombros, e meus joelhos racham

Tô preso a esse duotone, agridoce
Caído sobe esse duotone, agridoce
A sombra perdida na noite
A gota perdida na poça de sangue
A lágrima que evapora antes mesmo de escorrer
Ou escorre, e simplesmente se acaba

***

25 dezembro

Eco

 

Sou apenas mais um eco nesse vasto espaço,

Com ondas que se espalham e enfraquecem,

Até que nada resta, apenas o que um dia esteve ali,

E agora, nunca mais estará.

21 dezembro

O que é arte


Procura-se autor dessa obra.

Afogado em leituras que mixam reflexões e críticas sobre como o cinema e os jogos eletrônicos se aproximam e distanciam, assim como a realidade se distorce a cada geração tecnológica de experiências, me peguei pensando sobre O QUE É ARTE.

Essa palavra dolorosa tem sido uma incógnita há alguns anos, a ponto de eu sequer identificar arte no meu próprio fazer arte.

Mas, com os pés molhados embaixo do sol quente e tentando não pensar na insignificância da vida mundana, algumas ideias começaram a esquentar na minha cabeça, e é claro que eu nunca vou concluir o que é arte — tal como eu estou pouco me fudendo para o que você ou outras pessoas acham que é.

Porém, nós precisamos de um chão, de um significado, um pouco de sanidade mesmo que no escuro... eu acho.

ARTE é um esforço frustrado da humanidade em por em palavras, formas, desenhos ou sons aquilo que se sente. Frustrado pois enquanto não conseguirmos remover e inserir uma experiência entre pessoas, nada irá traduzir essa experiência.

De certa forma, pelo menos neste momento, entendo que a arte é essa ilusão solitária de que estamos propagando algo, mas não passa de um olhar otimista, pois ninguém sabe o que estamos fazendo.

Cada realidade criada a partir de uma obra é subvertida, destruída, mastigada, pela realidade criada a partir dela por quem a aprecia.

Entender o que é a arte não vai mudar minha vida ou a sua, mas tem certos mistérios que não conseguimos ignorar, e por mais que ninguém se entenda, vamos sempre continuar fazendo essa merda.

Nota: isso não é um esforço intelectual, uma concepção acadêmica ou mesmo uma formulação teórica. É uma poesia, não entendeu?

29 maio

Pés descalços

O toque dormente na pele
Pés descalços em choque
Rubro no chão e no céu
E o cheiro de infância
Inocência caçada e perdida
Palavras doces são ecos
O vazio é cada vez mais...
Espero apenas uma boa noite de sono.

31 outubro

A adaga

Sua mão deslizou sobre minha face
Pele na pele, a excitação transbordava
Delírios intermináveis e imensuráveis
Ela disse que aquilo era o amor.

Seus lábios tocaram os meus, e desceram pelo meu pescoço
Um calafrio correu pela minha espinha
E um suspiro longo marcou o momento.

Meu corpo gelou ao ser mordido
E uma pressão em meu peito me tirou da realidade
Com uma mistura amarga de dor e prazer,
Então ela se afastou...

E deixou, além do desejo, a sua adaga cravada em meu coração;
Banho de sangue.

18 outubro

Você deixou

Eu olhei tudo em volta,
O caos que ficou,
Tem lágrimas e sangue pelo chão,
E apenas o foda-se que você deixou.

E a tal lista negra,
Manchada com um único nome,
Letra carregadas de amor e ódio,
Vidas rasgadas e disformes.

Ah, suspiros tu arrancou quando partiu,
Me trai em dor, tu me iludiu,
Triste esse meio reflexo insano que sobrou,
Saudades de ti sanidade.

20 agosto

Faça, Faça

Se é assim que tu queres me ver,
Se é assim como tu queres me ter,
Tira-me desse estorvo abstrato,
Ata-me as mãos às costas, e faça,
Faça o que sempre quiseste fazer,
Pois abdico da minha liberdade pelo seu prazer,
Tu agora deténs meu dote, mas...
Apenas por um breve momento,
Sangra-me, bata-me, transa-me,
Fazes o que bem entender,
Pois tu não vês o que há aqui dentro,
Florescendo e florescendo,
Queimando, me corrói, sinto ardendo,
Já foi vermelho escarlate, vinho e agora...
E agora é uma camada de negro rubro,
E irá tornar-se como o manto da noite,
Como um olhar que se mantém distante,
Como à escuridão largado a sorte,
É a cor do ceifeiro que cantará em breve a sua morte,
E a tu não restará mais esperança,
Enquanto cairei à sua frente, gozando a vingança.

01 julho

Sob o olhar

O monótono momento que de desfaz, 
Arrancando-me da utopia vertiginosa,
Com suas palavras amargas e espinhentas,
E suas garras cravadas em meu coração,
Que sangra de desgosto, fúria e temor,
Diante do seu semblante de prazer

12 março

Essas flores

Toca-me com sutileza,
Enche-me de surpresa,
Ao ouvir sua voz soar.

Tenha certeza,
Atenção e clareza,
Que esse toque é amar.

Sinto-me à mercê,
Deslocado da realidade,
Entregue à você,
À deriva da mortalidade.

Fragilizado, amado em seus braços,
Amado, um afago entre seus seios,
Afago, beijado pelo seus lábios,
Beijado, jogado sobre anseios.

Ah, esse momento, como essas flores que te fazem sorrir.

06 janeiro

Cheiro dela

Me perco em quem sou,
Também com o que sinto,
Nem sei mais o que quero,
Mas sim, sei o que é esse vazio.

O perfume que se foi,
O momento que acabou,
O sabor que fugiu dos meus lábios,
E apenas a memória que ficou.

Mas lembranças não são doces,
Lembranças não são boas,
São a arma que dispara sem parar,
E aquele vazio? Apenas aumenta.

Drama, ah! É um drama, sim,
Largar a simplicidade, as regras sistemáticas,
Eis meu maior erro.

Mas vou ter que engolir está dor,
Terei que me rastejar com este pesar,
Pois sou humano e fadado a errar,
Mas aproveitarei este momento de sofrimento,
E o muro vou reerguer,
Mais forte do que antes, e me preparei,
Para como um bm homem, perecer novamente,
Para o perfume doce desta mulher.

11 dezembro

Estrela

Preciso me distrair,
Esquivar-me do fato,
Que caímos a todo momento,
Do espaço por todos os lados,
Sem dor nem sofrimento,
Mas causando alheios estragos,
A descrença de algo mais,
Ah, esse tal sentimento,
Em pedaços nos faz,
Meros mortais que fogem ao esquecimento,

Aquele brilho que se desloca no céu,
Um momento que se esvai,
É o choque de olhares,
É uma estrela que cai.