07 março

Reminiscência

Conto originalmente publicado na antologia Insólitos da editora Cavalo Café.
Sugestão para acompanhar a leitura:



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“Ela estava presa, com as garras da Onça cruel rasgando sua pele e manchando o seu manto branco de vermelho escarlate. Do chão, as tribos em pânico entoavam canções tentando animar sua deusa que perecia diante do poder do inimigo, eles não acreditavam quando viam o brilho agora todo vermelho no céu, como se sangrasse sobre a Terra.”

As palavras da velha não eram para assustar, mas enriquecer a criança com fragmentos daquilo que fazia sua cultura forte, suas histórias e origem. A menina se revirava com a cabeça sobre o colo da anciã, que não perdia o fôlego. A noite estava agitada, o vento vindo do litoral prometia uma tempestade. As luzes das fogueiras fora da oca atravessavam pelas frestas da madeira e ilustravam a narrativa com formas abstratas.

Há pétalas sob o sol

Algum momento presente.

Tão acolhedor era o cair da tarde sobre Beladona, que o sol e a lua pareciam dançar exibindo suas belezas sobre as ruas encharcadas naquela época do ano. As folhas amareladas das árvores que tentavam resistir ao inverno criavam uma malha macia e delicada sobre o chão, cobrindo o pouco do verde que restava e trazendo nostalgia ao coração dos mais velhos e encanto para os mais novos. “É a voz dos espíritos cantando enquanto buscam seu caminho.” diziam os mais velhos quando o vento chiava passando pelas frestas.


O que é Flash Tattoo?

O flash tattoo é um desenho pronto para ser tatuado, normalmente do estilo dominado pela artista ou experimental.

Hoje não é incomum ver tatuadores focando em tatuar apenas artes autorais, e muitas vezes os estudos e peças criadas sem compromisso acabam ficando disponíveis para o público por um preço ligeiramente mais em conta, sendo uma oportunidade para o cliente fazer uma arte de uma artista que admira economizando algum dinheiro, e também para a artista exercitar o seu estilo ou tatuar alguma arte que deseja muito.


01 março

Um canto


Há um canto na minha casa
O sol nunca cobre ele todo
Não é coberto, é apenas um canto
As sombras das paredes em V são duras
Duras como a solidão brutal desse canto
Não tinha nada nas paredes
Nunca teve nada no chão, além do chão
Às vezes eu
Esse canto é e não é parte da casa
Pois da casa vem lembranças e nostalgia
Do canto, é apenas um canto
Tem vezes em que junta um tico de casca ali
Tinta véia que cai da parede úmida
Pois o sol nunca cobre ele todo, o canto
De noite, parece que as coisas ocultas se arrastam pra lá
Tem algum mistério agridoce aqui
Pois ele deixa de ser da casa, é outra coisa
Eu vejo algo colado nesse canto
Mais escuro que a escuridão
Eu ouço algo colado nesse canto
Menos silencioso do que a noite
Eu... Sinto a parede descascada arranjar meu braço
O chão frio congelar meus pés
E a solidão engolindo meu corpo nu
Minha pele arrepia e naquele canto
EU ME PERCO TODA NOITE
Estou colado nesse canto
E não consigo gritar
Amanhã coloquei flores ali
Nunca vi vida viver ali
Mas elas viveram
São flores de morte
Esse canto também é irônico

***

Imagem registrada em algum momento entre 2010/14.

23 fevereiro

Maldito concreto


Não é noite, mas o brilho melancólico do céu turva com o cheiro da chuva
Sei que vai chover, não preciso olhar para cima, sinto na minha pele
Mas somos curiosos, e olho assim mesmo, nuvens carregadas
apenas, nuvens carregadas
O cheiro da chuva poderia estar menos forte se eu não tivesse olhado
Nunca vou saber, mas na frenesi do maldito cotidiano
Na melancolia da água que está por vir, para lavar as nossas almas
Tomando a minha atenção, meu olhar, há o poste
Química e minerais, um monumento singular da sociedade contemporânea
Orgulhosa por cada centímetro desse amaranhado de cobre e plástico
Orgulhosa por cada tensão que distorce a sua natureza

Esses nós, agora, no escuro
São nós como da garganta
Não de hoje ou de ontem
Mas de décadas de desespero sem grita
Décadas de feridas sem chora
E dentro desse maldito edifício de cimento
O coração pulsa, ou pelo menos tenta

Eu deveria agradecer a chuva
Agradecer as plantas que resistem na Babilônia
Mas que que se foda,
Enquanto sento, respiro, choro, grito, gargalho, me afogo
Vendo a perfeição queimar até o chão

—Imagem do autor (02/2025)