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07 setembro

O Ócio no Caos



Transcrição da apresentação do projeto: “O ÓCIO NO CAOS - RESSIGNIFICAR O EXCESSO EM CYBERPUNK 2077 FRENTE À SOCIEDADE DO CANSAÇO”, no 12º Seminário Nacional - CINEMA EM PERSPECTIVA na UNESPAR em 2025.

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Hoje eu trago pra compartilhar com vocês um estudo em andamento e parte da minha dissertação. O estudo se chama: O ócio no caos e articula ideias teóricas e análises sobre experiências com o jogo Cyberpunk 2077 (2020), da CD Projekt Red, um jogo digital distópico de mundo aberto (ou seja, você pode explorar o mapa da cidade sem muitas restrições), de ação e em primeira pessoa.

Meu objetivo é analisar uma potência presente em jogos AAA (de grande orçamento) com características de mundo aberto e role-playing game, especificamente no título mencionado. Essa potência se traduz em aspectos técnicos e artísticos dos jogos que podem ser revelados pelos jogadores e ressignificados, principalmente, usados como uma ferramenta de pausa, contemplação e resistência às demandas opressivas da contemporaneidade, como o filósofo Byung-Chul Han aponta na sua obra Sociedade do Cansaço, e é daqui que a gente começa.

Um Pixel Morreu e Chorei



Transcrição da apresentação do projeto: “UM PIXEL MORREU E CHOREI: HIPER-REALIDADE EMOCIONAL EM LOGAN (filme de James Mangold, lançado em 2017) E THE LAST OF US PART II (jogo da Naughty Dog, lançado 2020)”, no Seminário Brasileiro de Estudos em Animação - SEANIMA - 2024. Realizado online e transmitido na plataforma YouTube.

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Nesse estudo eu procuro explorar como determinados elementos da linguagem cinematográfica são apropriados pelos jogos digitais e potencializam uma experiência emocional engajante para o espectador/jogador, e para dialogar com essas reflexões eu trago a construção da ilusão de realidade como ponto de convite e envolvimento do jogador, tomando a teoria de Siegfried Kracauer na obra de Andrew Tudor, em seguida dialogo com a suspensão de descrença, de Samuel Taylor Coleridge para compreender a aceitação dos eventos e personagens, por parte do jogador, ignorando a ficcionalidade, e por fim, como os elementos estruturais conduzem a uma imersão hiper-real, a partir de Jean Baudrillard e potencializa o engajamento emocional com uma experiência mais genuína.

Logo que eu assisto a um filme, muitas vezes me pego pensando além da compreensão sobre o que assisti, mas também como fui impactado emocionalmente e por quê.

Samurai Negão



Transcrição da apresentação do projeto: “SAMURAI NEGÃO: ATRAVESSAMENTOS CULTURAIS EM GHOST DOG (1999) (filme de Jim Jarmusch) E AFRO SAMURAI (2007) (anime de Takashi Okazaki)”, no 5º CINE-FÓRUM - Cinema, Letras, Arte, Sociedade e Debate, 2025. Realizado online e transmitido na plataforma GoogleMeet.

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Hoje eu quero apresentar pra vocês um estudo em andamento, chamado Samurai Negão, que se debruça sobre duas obras maneiras: o filme Ghost Dog: O Caminho do Samurai (1999), de Jim Jarmusch, e o anime miniseriado Afro Samurai (2007), de Takashi Okazaki.

A ideia é analisar a construção simbólica e histórica da figura do samurai, explorando como se desenvolveu seu papel na sociedade japonesa e então a difusão e reconstrução dessa figura no imaginário ocidental por meio da literatura, do teatro e principalmente do cinema. Também observar um pouco de como esses atravessamentos culturais acabam criando novas leituras desta figura através dessas “negociações” que acontecem entre as identidades de uma maneira complexa, especialmente a identidade negra diaspórica. E também como a mistura de culturas - japonesa, afro-americana, o hip-hop, entre outras, criam uma cultura nova, que provoca e é potente.

20 dezembro

Dream Grama (2024)

 

Uma garota conta para sua amiga sobre um recente sonho estranho do qual ela ainda não se recuperou e tem a sensação de que ainda está sonhando.

Projeto desenvolvido na disciplina de Poesia no Cinema no mestrado de Cinema e Artes do Vídeo da Universidade Estadual do Paraná, inspirado pelas obras e estudos de Maya Deren e reflexões sobre o delírio e descontinuidade do espaço e do tempo.

Roteiro, Direção e Montagem: Uoshi
Dir. de Arte e Fotografia: Castro Pizzano
Elenco e Figurino: Sali Cimi
Apoio: Masdon + CasaTreze Studio

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Sobre o processo criativo

Particularmente, antes de me propor (pois mais do que um projeto para disciplina, esse material também é um desafio pessoal) a criação do projeto “Dream Grama”, buscar como inspiração e referências os trabalhos de Maya Deren parecia assustador e impossível. Meu primeiro contato com Deren me permitiu compreender algo que eu sabia que existia no cinema, mas estava sem uma forma, sem um nome, sem uma estrutura analítica. Refletindo sobre isso, entendi que o maior desafio está em nos desprendermos do que é convencional, das estruturas narrativas tradicionais, as quais, inclusive, estamos tão enraizados que e o primeiro ato ao observar uma obra é buscar por significados e leituras, ao invés da pura experiência do observar.

KT4RS3 (2024)


Da violência a contemplação, a cartarse em The Witcher 3.

KT4RS3 é um vídeo experimental machinima que busca ilustrar duas forças antagônicas que despertam minha curiosidade no universo de The Witcher 3. De um lado, a violência essencial que move a narrativa, onde o bruxo é constantemente recompensado por eliminar monstros, cumprir contratos e se encontra em constantes momentos que exigem brutalidade.

No entanto, o que me intriga é a possibilidade, oferecida pelo mundo aberto, de pausar essa trajetória violenta e me desconectar da urgência narrativa.

Nesses momentos, a ambientação do jogo revela belezas inesperadas, levando a uma suspensão do caos e permitindo momentos de contemplação e introspecção poética. Esse contraste entre o esforço máximo e a suspensão poética é objeto de reflexão nesta composição de 60 segundos, que explora visualmente como esses extremos podem se relacionar e coexistir.
 
✨ Compartilhado na newsletter Jul 2025 do VRAL — Milan Machinima Festival.
✨ Exibido no New York Lift-Off Film Festival 2025.
✨ Vencedor no Lift-Off Sessions—January 2025 por Audience Choice.

Créditos:
Captura, montagem e edição: Uoshi

19 dezembro

deadpoolwolverineetiktok (2024)

Se o vídeo for derrubado—possivelmente por direitos autorais, acesse esse link para assistir ao backup no Internet Archive.

O processo criativo é algo realmente curioso. Ele surge em momentos estranhos e em situações estranhas, ou melhor, ele pode surgir, e ou melhor, suas primeiras faíscas podem surgir. Eu não sou usuário assíduo do TikTok, mas confesso que desde que descobri o festival de cinema vertical da plataforma Cannes, passei a prestar mais atenção nos cineastas amadores e profissionais que criam filmes no formato 9:16.

Porém, foi ao ser "atropelado" pelo algoritmo depois de conferir alguns spoilers sobre Deadpool & Wolverine (2024), de Shawn Levy, ainda na sua primeira semana nos cinemas, que comecei a refletir sobre o fazer cinematográfico e a materialidade do TikTok. Minhas pesquisas foram de buscar spoilers, para a tentativa de encontrar fragmentos maiores e pirateados do filme. No meio disso, me deparei com formatos curiosos de compartilhamento e consumo de incontáveis títulos na plataforma.

Antes dessa experiência, já vinha explorando um submundo digital onde "arqueólogos" compartilhavam cópias raras de filmes por meio de redes rizomáticas de hiperlinks no Google Drive, OneDrive, Dropbox e outros. O que tem de mais nesse movimento pirata? Deixando os questionamentos da legalidade de lado, a galera—principalmente do Twitter e Bsky—estava construindo, não intencionalmente, um catálogo de preservação digital, uma proposta semelhante ao Torrent, porém, ignorando a volatilidade e a complexidade existente ao lidar com P2P (peer to peer), e simplesmente permitindo o acesso aos arquivos através de um único link e diretamente. Mais do que isso, a possibilidade de assistir aos filmes em qualquer dispositivo apenas pelo navegador.

Fragmentos, remix e um novo modo de assistir cinema?

É óbvio que armazenar diversos arquivos de filmes exige um pacote caríssimo na nuvem, exceto que, essas mídias estavam armazenadas em incontáveis contas gratuitas. Um esforço imenso que só poderia ter vindo de cinéfilos famintos e insatisfeitos. Mas o ponto é que, essa necessidade acabou criando uma nova forma de distribuição e consumo, e ao observar o TikTok, me deparei com outras formas também, que correspondem melhor às novas gerações. Alguns perfis compartilhavam trechos considerados principais de filmes e divididos em 10 ou 20 vídeos. Outros tinham vídeos que resumiam filmes em 60 segundos, e outros até mesmo comprimiam e aceleravam obras inteiras para serem assistidos na velocidade reduzida, como o exemplo de A Viagem de Chihiro (2001) publicada pelo perfil @telona.colorida (acesso em 12 Out 2024).

Enquanto voltava a pesquisar sobre Deadpool&Wolverine, notei também o quão interessantes eram as mixagens feitas com o filme—recortes específicos enfatizados por trilhas sonoras aplicadas diretamente no TikTok e também efeitos que davam outra dinâmica pra essas cenas, deixando elas mais impactantes ou dramáticas. Isso não é uma pratica nova, de fato, a remixagem é algo analógico e que ganhou poder com o digital, principalmente de produções sonoras. No vídeo já se tinha desde found footages à produções mainstream explorando isso, porém, agora está ali, líquida, nas mãos de qualquer pessoa que consiga acessar o aplicativo. Dentro das artes isso é algo exponencial, pois a acessibilidade permite um atravessamento cultural tão profundo, que novas e novas "metamorfoses" da linguagem se criam a cada minuto.

Construindo a partir de fragmentos

Passei cerca de 4 horas scrollando o feed, me deparando com diversos trechos do filme gravados direto de dentro de salas de cinema por espectadores e também de diferentes trailers. Nas primeiras horas eu estava um pouco sem rumo, apenas explorando, em seguida fiz cerca 2 horas de gravação da tela do computador. Esse foi o primeiro erro que preciso admitir imediatamente. Acessei o TikTok na versão desktop, com uma usabilidade horrível, e não me atentei para o detalhe da experiência, mas vamos voltar nisso mais para frente. 

Com a captura de tela pronta, de uma maneira bem simples criei vários recortes entre os vídeos que gravei e criei uma espécie de "linha do tempo", arranjando cada fragmento em uma lógica narrativa que me parecia interessante. O vídeo final ficou com aproximadamente 15 minutos. Mostrei pra algumas pessoas, agora já saturado de pensar e apenas deixando o lado criativo se exercitar, e recebi o mesmo feedback de várias: "Ficaria melhor se tivesse sido gravado no celular".

A experiência que o TikTok proporciona—isso é obvio, mas eu apenas não me liguei—é única no dispositivo móvel. Por mais que eu edite um vídeo e floreie visualmente, a versão de computador nunca vai entregar a mesma sensação ao olhar, a mesma relação com a proporção da tela. Então, exclui tudo. Voltei para o TikTok, agora no celular, e partindo das mesmas pesquisas, comecei a gravar a tela. O processo se repetiu. Mas dessa vez, até mesmo a experiência de montagem foi diferente, foi legítima. Não vou me prolongar aqui, pois durante a montagem dessa segunda tentativa o arquivo corrompeu.

A terceira montagem foi um divisor de águas: criei o arquivo no Adobe Premiere Pro. O software não só facilitou a edição, como também a organização da obra em si. Eu já tinha experiência com ele, mas na pressa de descobrir o que eu poderia montar, usei qualquer um. No Premiere, pude criar uma organização baseada em cores para os trechos que eu recortava da gravação integral, isso facilitou a criar uma "ordem lógica" dos eventos que caminhava por um "fluxo dramático" da narrativa de cada parte e claro, pela conexão da fotografia e elementos da mise-en-scène.

Imagem da linha do tempo no Adobe Premiere Pro

Em alguns minutos, essa prática se tornou um "modo", que diferente das tentativas anteriores, me permitiu manipular mais precisa e rapidamente os arquivos, ainda tendo o cuidado com a curadoria das imagens sem criar continuações nonsense—mesmo que houvesse uma certa desconexão entre algumas imagens—por mais que as cenas fosse diferentes.

Dividi o filme em três atos a partir dos recortes: o primeiro é a busca de Deadpool por Wolverine; o segundo, o encontro com a nêmesis e aliados; e o terceiro, a jornada solo de Deadpool e Wolverine. Usei elementos visuais, como por exemplo, o número de tiros no uniforme de Logan, para marcar a progressão desses momentos.

Durante esse processo, algumas coisas começaram a chamar minha atenção, por serem cômicas e também interessantes: diversas das imagens destoam na linguagem, pois os vídeos eram gravados em salas de cinema de diferentes partes do mundo, então é possível identificar idioma indiano, brasileiro, inglês norte-americano e espanhol. Além disso, há uma variação entre gravações minimamente precisas e outras poor image brutais. Há também muitos vídeos com intervenções dos próprios usuários que traziam cenas do meio e final do filme, ou recortes específicos do final, mas com detalhes textuais que indicam se tratar de um plot twist, e que de certa forma, ajudaram na organização da lógica temporal da montagem.

Ao final de algumas horas editando, o filme do filme estava pronto, com cerca de 40 minutos.

"deadpoolwolverineetiktok" é um título oportuno, pois com ele pronto, além dos feedbacks insanos que recebi me chamando de louco por montar aquilo ou mesmo essa obsessão pelos fragmentos na plataforma, serviu como um gatilho para diversas reflexões que podem ou não levar à algum lugar. Afinal, se foi possível fazer essa "brincadeira" com esse filme, é possível fazer com diversos outros que passem pelo mesmo processo, poderia até mesmo ser uma série de releituras.

O TikTok como máquina de narrativas alternativas?

De um modo curioso, se observarmos agora, de fora, o TikTok acaba se tornando um calabouço de fragmentos de mídia, um repositório alimentado—intencionalmente, mas não consciente desse ato—por usuários que estão expressando ideias, momentos da sua vida, ou apenas poluindo um pouco mais a rede. É claro que o TikTok modificou profundamente a maneira como consumimos, interagimos e criamos mídia, mas há mutações dentro dessa cultura que ainda parecem pouco exploradas ou pensadas, talvez pouco experimentadas. É preciso remover as tripas para explorar novos limites de experimentações, e atos criativos—ou não, tome como quiser, são caminhos para esse vislumbre.

Desse repositório, tudo o que eu fiz foi curar materiais e remixar de acordo com a minha vontade, a minha lógica, porém, esse "fazer coletivo" não me permite dizer que a obra é minha, pois cada usuário teve a sua parte. Eu apenas organizei, fui o montador e responsável por esse hipercorte. E a partir disso também comecei a refletir:

1. A possibilidade de "assistir" um filme antes de vê-lo no cinema cria uma nova experiência cinematográfica? Esse "cinema lixo", hipercorte ou footage tem potencial para ser explorado em diferentes contextos? Eu li há algum tempo sobre paracinema em um texto sobre filmes B, vou deixar esse comentário aqui para voltar nisso no futuro, pode ser frutífero.

2. Essa ideia do "fazer coletivo", a possibilidade de qualquer pessoa ter o poder de reconfigurar narrativas, e também essa criação não intencional de um repositório me lembra a inteligência coletiva de Lévy, e o conceito de remix de Lessig, mas tenho certeza que olhar para estudos das novas mídias vai haver algo que possa ajudar a estabelecer melhor essa reflexão.

3. O TikTok não é apenas uma base de dados, mas também uma máquina de narrativas alternativas? Se pararmos para pensar, é um repositório global e gratuito—até os limites dos direitos autorais—, e esse ato de remixar esse conteúdo seria o underground do underground, e possivelmente a maior resistência às engrenagens operatórias do cinema dominante, além da pirataria. Não quero dizer que vá fazer alguma mudança significativa no mercado, mas definitivamente é uma mudança significativa nas subculturas.

4. Seria ingenuidade dizer que, essa remixagem, e tantas outras que são possíveis, possam configurar uma estética singular? Talvez uma estética do fragmento, onde a imperfeição é essencial para a experiência, considerando as diferentes qualidades de áudio e vídeo, câmeras tremidas, legendas e textos sobrepostos? Por mais que não exista alguém colando esses recortes, montando esses filmes, apenas do ponto de vista de como experienciamos esses trechos de forma aleatória e criamos em nossas mentes uma ordem lógica, poderia o TikTok estar sendo sem querer o responsável por um novo cinema nativo da rede?

Seja como for, vejo nessa experiência um potencial que se destaca, e é muito semelhante ao machinima: o poder que uma pessoa, com o menor conhecimento arístico que seja, tem de agir sobre a mídia, atribuir novos significados e sentidos, e criar a sua expressão independente.

O "fazer coletivo", uma boa expressão para o ato de hackear o cinema, talvez "hipercorte" possa também representar bem esse monstro que se revela ao final da montagem, a realidade de quem cola os fragmentos. Fico imaginando quantas versões alternativas e vertiginosas de Deadpool&Wolverine poderíamos ter se cada pessoa decidisse montar sua versão, é isso que eu chamo de multiverso.

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Este projeto foi apresentado também em uma palestra no seminário 5º Cine-Fórum em 2025. O texto apresentado foi a partir do que você acabou de ler e os slides apresentados durante o seminário encontram-se abaixo: