01 janeiro

Os Millennials mataram a paixão

I. A velha história da paixão versus amor

Quando paro pra pensar sobre a paixão e o amor, há duas coisas que ficam claras de imediato: a paixão é tempo e o amor é espaço.

Bachelard fala sobre a memória como algo fixado em um espaço, e não em um tempo específico... é um pouco complicado, mas de forma extremamente resumida: o tempo se condensa em espaços-memória. Quando voltamos para uma memória, ela é potencializada pela imaginação a partir do espaço, criando uma outra realidade, na qual o tempo pode ser até equivocado.

Assim, sempre encarei a paixão como esse algo que acontece, te puxa em um mergulho intenso em emoções e breves momentos, e aos poucos se desfaz... mas não por acabar — às vezes ela só acaba, e tudo bem —, mas por servir como uma ponte para nos conectar e permitir que exploremos algo especial em alguém. Durante esse momento de paixão, o tempo assume diversas formas e os momentos que se criam carecem de certa profundidade e, por isso, são memórias mais fáceis de se perderem ou misturarem.

A falta de profundidade não é algo negativo, pois a paixão é como um mergulho em um novo horizonte de informações, mas estamos tão ansiosos para ver o que há além desse horizonte (medo, ansiedade, expectativas, etc), que as coisas parecem apenas nos atravessar, sem necessariamente provocar uma mudança significativa. Nós não estamos no momento da paixão, nós consumimos ele.

Porém, quando essa paixão se torna amor — pode ser amor romântico, pode se transformar em amor de amizade, de irmandade e tantas outras formas — o tempo aos poucos perde a sua força e os momentos que vivemos deixam de estar em um 'tempo' e se fixam em um espaço. Pelo tempo se dilatar, chegar no 'além desse horizonte' deixa de ter significado, pois a profundidade dos momentos com as pessoas se torna significativa; o momento 'agora' ganha um valor transcendente.

No amor, nós paramos de tentar 'chegar' em algum lugar, e passamos a 'estar' em algum lugar. A transitoriedade é borrada e a potência dos momentos se torna suficiente para proporcionar verdadeiras experiências — vivências que podem ser dolorosas ou prazerosas, mas que nos mudam essencialmente.


II. Quando a paixão morreu

Há algum tempo falei sobre a solitude ser superestimada, assim como a repressão das emoções é uma das cerejas no bolo para estarmos tão esgotados. Não à toa eu retomo essa última parte, pois é muito claro como ao longo dos anos, principalmente com a exposição digital e os memes, ser verdadeiro às próprias emoções é algo suprimido, enquanto 'criar' uma pessoa para 'ser' na sociedade sem correr riscos virou fetiche.

Se apaixonar tem deixado de ser a vivência transitória para se tornar outra commodity, um ato primitivo, carnal e ainda menos significativo. O horizonte não existe mais, pois tudo parece ter prazo de validade, regras complicadas e manutenção constante...

A falta de profundidade da paixão era o que permitia errar como uma criança, arriscar, se expressar e passar vergonha sem ter vergonha. Era o que permitia dizer 'eu gosto de você' ou mesmo 'eu te amo' ainda que sem ter certeza e tudo bem, pois fazia parte da paixão estar enganado.

Hoje, em momentos que tudo é 8 ou 80, o erro parece um fim definitivo. Passar vergonha é impensável e ser verdadeiro aos seus sentimentos, por mais que eles mudem amanhã, é um risco calculado. Os Millennials se perderam na própria narrativa ao apontar dedos, racionalizar em excesso e perder a coragem de vislumbrar além do horizonte.

Nos tornamos covardes, repetitivos, acomodados e ainda temos a audácia de dizer que o problema é a nova geração ou se foi a antiga que fodeu com tudo, ou que as pessoas não amam mais. É, fodeu.


III. Isso não é uma solução, mas foda-se

Eu tenho tentado viver um dia de cada vez e ao máximo. É difícil, você provavelmente sabe, e eu sempre fui o tipo de pessoa que curtia as coisas intensamente, mas desapegar do amanhã para estar no agora tem sido uma das coisas mais difíceis da minha vida.

Isso não diminui a intensidade do que estou tentando curtir... pelo contrário, é uma provocação para que eu me permita os erros da paixão, explorar dúvidas, me abrir quando acho necessário e sem medo de ser julgado, sem o medo da vergonha. Talvez desapegar deste último seja o mais árduo, pois há essa pira de que se você... sei lá... falar que 'ama' alguém ou 'gosta muito', algo assim, e a pessoa não responder ou algo transformar o momento em algo desconfortável, aquilo vai te marcar para sempre...

Besteira. Em alguns meses é capaz que você sequer lembre, e se lembrar, vai estar no emaranhado de transições que você viveu e provavelmente apenas fragmentos serão compatíveis com a realidade, pois ao se permitir e arriscar, tantas coisas incríveis podem acontecer que o tempo vai se distorcer e você finalmente vai poder experimentar o espaço, o momento de estar onde você deve estar por completo.

Dizem que o mundo está ficando louco... eu acho que ele está ficando tedioso e talvez a loucura possa fazer uma pequena diferença, mesmo que apenas para você.

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