Comece aqui: Já faz algum tempo que começamos a jogar Her Odyssey, e contra todas as possibilidades, sobrevivemos ao primeiro dia vagando para o sul da floresta de Brumvar. Se você perdeu o primeiro dia, aproveita pra ler aqui, ou se tá por dentro, vem para segundo dia!
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Segundo dia
Status atualizados: 4 Vitalidade (V), 5 Agilidade (Q), 3 Fortitude (F).
Omen Score - Dois de Copas ♥️ (2)
Sofri a noite toda de febre. Se os ferimentos não estavam envenenados, no mínimo estavam infectados com algo que meu corpo não conseguia vencer. Tentei me levantar pouco antes do sol nascer, mas não sentia nem mesmo as minhas pernas... por um momento imaginei se a minha jornada poderia estar acabando, tão breve e patética. Antes mesmo de começar.
Senti minha respiração pesando, meus olhos também. Seria bom descansar, mas definitivamente aquilo não era um descanso saudável.
Por um momento imaginei ouvir assobios distantes, vozes cantarolando, o barulho de rodas de madeiras sobre o chão batido. Delirei que uma moça e um garoto se aproximavam arrastando uma maldita carroça de madeira carregada com vegetais e puxada por um jumento, parecia que tudo iria ficar bem... até a voz macia dela eu pude ouvir claramente.
"Me ajude a levar ela at...", foi a última coisa que entendi antes de apagar. Também senti um aperto forte nos meus calcanhares, mas não tive tempo de sentir o alívio de aqueles dois estranhos não serem uma ilusão.
Acordei sentindo cheiro de esterco, uma mistura estranha também de trigo, amêndoas e... lavanda?
A moça se aproximou sorrindo, e o garoto logo atrás, curiosos, estranhamente animados. Conversamos um bocado, Lua, era ela, e seu irmão era Jona. Viviam sozinhos no que parecia ser um vilarejo próximo a parte norte da clareira. Por azar, parece que não fui tão longe afinal.
Eles cuidaram dos meus ferimentos, me alimentaram e passaram horas contando sobre como eram seus pais, pessoas importantes do vilarejo e uma lenda local sobre uma criatura com pés gigantes e asas de morcego, não consegui decorar o nome, mas parecia mais um pigarro do que uma pronúncia.
O casebre era humilde, mas bonito. A madeira tratada, do chão e paredes, era levemente escurecida, acolhedor. Os irmãos eram fazendeiros, como todos os outros ali. Plantavam principalmente trigo, mas disseram que havia de tudo um pouco.
No almoço, outras pessoas vieram, amigos, não havia parentes. Serviram broas, grãos, mel e vinho, aparentemente não comiam carnes. Os animais de criação eram apenas para prover, disseram, e ninguém lá ousaria matar para comer. Imaginei que talvez aquele povo, generoso e amigável, apenas não conhecesse a fome, bom para eles.
As conversas foram breves. Eram claramente trabalhadores, e não perdiam tempo... o clima foi ficando tenso com o chegar da tarde. Ouvi murmurinhos de que era dia do imposto, e o senhorio que dominava aquelas terras era um bastardo ganancioso, já havia matado por moedas, mas apesar disso, mantinha o vilarejo protegido de invasores e dos rebeldes da montanhas que se aventuravam nas planícies.
Lua parecia mais preocupada com Jona do que com todo o resto, ela contou que o senhorio eventualmente levava os mais novos se o pagamento não fosse suficiente. Ele treinava eles como animais e transformava as crianças em empregados, ou melhor, escravos. Era assim que ele comandava, com terror.
Enquanto ela falava, me distraí. Lábios, covinhas, cachos, o cheiro. Ela me lembrava alguém familiar. Um momento de lembrança agridoce, de prazer, saudades e também dor.
Saí do devaneio com uma agitação anormal do lado de fora. Vozes pesadas deixavam claro que o senhorio havia chego, e o tom rouca da sua voz, que soava como um porco espremido, mostrava que ele não estava satisfeito. Lua saiu com uma bolsa de dinheiro, mas pediu pro Jona ficar.
Ele apenas espiou da janela enquanto gritos ecoaram na confusão, entre eles, os de Lua.
Meu coração disparou, tentei levantar (teste V d4=3). Senti alguns ferimentos se abrindo, mas não foi o suficiente pra me parar. No caminho até a porta, peguei um cutelo que estava sobre a mesa. Alguns soldados seguravam as pessoas enquanto o velho porco gritava com Lua que estava estirada no chão. Vi ele jogando um saco de moedas para cima enquanto praguejava... senti algo além de raiva e desespero subindo pelo meu corpo, contaminando minha mente, e quando parecia que eu estava perto o suficiente pra ajuda Lua, uma pancada acertou meu ombro, me jogando pra trás.
Senti meus ossos deslocarem e uma dor fudida, e então o soldado que me acertou com uma maça parou do meu lado e ergueu a arma novamente, agora mirando minha cabeça (teste Q d4=4). Tentei rolar para o lado o mais rápido que pude, mas não foi o suficiente. Porém, em um piscar de olhos, metade do tronco do soldado desapareceu e uma chuva de sangue me encharcou. Os gritos eram generalizados. Horror para todos os lados. Felinos bizarros e sombrios pulavam das sombras sobre todos. Usei o máximo da minha força para ficar de joelhos, apoiei a mão contra o chão chorando com a dor no ombro, então joguei o peso do meu corpo tentando colocar ele no lugar.
Um estalo, e eu quase apaguei.
Notei Lua ainda no chão, enquanto o senhorio era devorado. Peguei a maça do que restou do soldado e fui até ela, mas antes que pudesse fazer algo, paralisei quando ela foi arrastada rapidamente pra dentro da escuridão da mata nos arredores do vilarejo. Engoli seco, e lembrei de Jona. Meus olhos correram pela bagunça. Me apressei em direção a casa, usando a maça pra afastar aquelas criaturas. Vi algumas pessoas resistindo, ainda lutando, e um e outro corpo felino no chão. "Pelo menos ela podem ser mortas...".
Cheguei na porta do casebre, mas era tarde. Bati a porta e esmaguei a cabeça de uma criatura que pulou em mim com o barulho.
No chão, Jona engasgava com um buraco no peito. Eu queria acabar com o seu sofrimento, eu precisava (teste F d4=4). Ele segurava uma pequena faca, estava tentando se defender. Peguei a lâmina e antes de aliviar a sua dor, ele balançou a cabeça em um gesto de permissão enquanto seu olhar se mantinha fixo em mim. Depois do último suspiro, algo dourado brilhou no olho direito de Jona, sumiu no preto da pupila e surgiu novamente sob sua pele, deslizando pelo pescoço, ombros, braços, chegou em sua mão. Não havia notado que ele estava com a mão apoiada no meu braço ferido, e quando o brilho passou para a minha pele, ele sequer parecia ter sido ferido um dia.
O brilho então continuou passando pelo meu peito, para o outro braço e impregnou a lâmina. Ela brilhou como um sol, e então se apagou. Era novamente uma simples faca de bolso. Eu acho.
Levantei. Peguei alguns suprimentos, ervas, remédios, enfiei o mais rápido possível em um saco.
O gritos haviam parado. Agora, apenas soluços, sussurros e choro. As criaturas ficaram satisfeitas e foram embora... eu também. Acho que ninguém notou meus soluços, ou meu choro. Guardei a faca de Jona no casaco, o sorriso da Lua na minha memória, e desapareci entorpecido na madrugada de volta a Brumvar.
Checando dia "Auspicioso/Inauspicioso": Soma V3 + Q4 + F4 = 11. Omen Score 2. É um dia auspicioso.
Encostei em uma árvore antiga e com troncos grossos. Garanti que não estava exposto. Me senti exausta, ofegante, mas só então me dei conta que os ferimentos das minhas pernas eram apenas cicatrizes. Como se meses tivessem passado em algumas horas. Peguei a faca de Jona e a olhei novamente, era apenas uma faca, mas não. Senti calma, calor, vida. "Você vai comigo?", pensei antes de fechar os olhos.
Checando "limites do andarilho": V3 / Q4 / F2.
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Okay, sobrevivemos mais um dia, apesar de ter sido um dia fudido. Comecei o segundo dia apenas tentando dar um texto para como fomos parar em uma fazenda, não imaginei que fossemos encontrar algo tão cedo... mas foi interessante. Não? Acho que o drama veio no embalo da playlist que eu estava ouvindo rs Logo vamos descobrir o que vai acontecer no terceiro dia. Até lá.

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