Acho que sou maníaco. Não no sentido clínico, mas no sentido de que tenho uma obsessão por criar coisas. Quem lê o meu blog, já deve ter notado, quando não é com papel, é com código, ou música, ou escrita. Sempre tem alguma coisa pulsando aqui dentro. Implorando para ser jogado pra fora de alguma forma, em algum formato.
Talvez esse termo seja forte, mas sabe quando você encontra algo que parece caber? Fazer sentido? Dispenso todas as gravidades clínicas, acho que o termo é mais próximo pelo sentido de não conseguir controlar esse impulso de "fazer".
Há muitos anos vi um vídeo da Emilie Wapnick sobre pessoas multipotentialite, ou multipotenciais. Foi uma forma dela "categorizar" pessoas que tem o hábito de se apaixonar por algo, dedicar tempo e esforço para aprender, compreender e produzir, e então desapegam e vão para a próxima paixão. E isso acontece com uma frequência tão grande, que é difícil acompanhar. Em um mundo onde ser especialista é algo tão requisita, essas pessoas acabam se tornando os "fracassados" da sociedade, mas na verdade, são pessoas que tem uma capacidade de aprender e se adaptar de forma rápida e profunda—sim, nada elimina a profundidade, mesmo que seja algo que não se mantenha por muito tempo.
Acredito que estou há alguns anos permeando essas duas ideias. E tudo bem. Basicamente aprendi a lidar e ser assim. Mas esse não é um post pra dramatizar essa situação, e sim, principalmente, compartilhar um pouco das coisas que eu venho fazendo, e acabei acumulando e não compartilhando—e vocês sabem que eu gosto de compartilhar.
Sobre coisas materiais
Já fazem alguns meses que eu não tenho postado nada, principalmente por eu ter estado imerso na defesa da minha dissertação—correu tudo bem, depois compartilo mais. Porém, eu ainda estava experimentando várias coisas. Então, começando pelas materiais:
Faz tempo que eu não pinto ou desenho. Mas tenho experimentado muito com colagem, recorte, e refletido muito sobre remixar coisas. Acho que isso começou com uma ideia de junkie journal, um diário de lixo, tipo aqueles que tu vê no Pinterest que a galera cola várias embalagens e outros tipos de coisas, até que o caderno fica uma monstruosidade... mas eu não me deixei levar muito pela estética tumblr da parada, pois o que me interessava era a ideia de colagem, a prática de criar visualmente com certas limitações, e também de registrar momentos sem datas.
Assim, o caos começou. Bilhete de cinema, embalagens, recortes, cartões de visita, folder, cartões, pulseiras, adesivos, plantas, notas fiscais, bolacha de bar, envelopes... eu tentei não pensar ou separar muito as coisas, apenas pegar o que marcava algum momento e colar nessa montagem estranha e divertida.
Depois de alguns meses, notei que por mais que eu não pensasse na estética, ela estava se criando naturalmente, e isso é muito louco, pois mostra como nosso cérebro sempre vai ser vencido pela gestalt. Também, o mais importante, imagino que esteja no processo. Esses pequenos objetos meio que são como âncoras para momentos de aceleração, pois eu me vejo cada vez mais dando atenção para as pequenas coisas, e não digo poeticamente, mas pequenas coisas que eu manuseio, ou que vejo em algum lugar e posso pegar, e sei que pode ser colado no caderno ou talvez seja um desafio fixar isso. No fim, essa prática boba tem se tornada um momento curioso de abstração e de certa forma, é reconfortante.
Pra quem tem curiosidade, mas por algum motivo não experimentou ainda, fica aqui meu empurrãozinho pra você experimentar começar o seu caderno. Sem expectativas, apenas pegue o que se destacar aos seus olhos e cole. E quem se você já tem essa prática e quiser, compartilha comigo, vou me amarrar em ver!
Outra coisa que tenho feito é coletar essas embalagens de papel. Ainda não tenho certeza o que quero fazer com isso, mas alguma coisa nelas começou a me atrair, talvez a textura, a cor—ou um momento de mania, que passou tão rápido quanto chego, que tive para começar a fazer papel.
Essas embalagens craft estão em todo lugar, e por acaso comecei a fazer zines (falo mais disso já, já) e cada vez que eu pegava um papel desses na mão, pensava "pô, daria pra cortar num formato X e fazer uma zine sobre tal coisa...". Ainda não experimentei, mas estou guardando. Minha mãe disse que esses papéis são ótimos pra forrar o armário ( ͡° ͜ʖ ͡°) não discordei, mas acho que vou coletar mais um tanto pra ver o que acontece. Talvez eu faça zines, ou colagem, ou alguma composição com arte, vai saber qual vai ser a próxima mania que dê pra mixar com isso, né?
Falando em zines, já tem um tempo que tô criando algumas zines, principalmente pelo Clube de Zines da Biblioteca de Zines, um projeto super maneiro que lança temáticas mensais pra inspirar a galera a criar. No site da Biblioteca tem uma porra de coisas publicadas também, e com diversas temáticas, desde artísticas até políticas, fica a sugestão pra atiçar a sua curiosidade.
Uma das minhas últimas zines se chama "um mergulho marginal como poeta", ela é uma colagem que eu fiz recortante trechos de textos de revistas. Depois de colar todos aleatoriamente, tentei encontrar palavras para costurar uma poesia, sem propósito, apenas me deixando levar pelo feeling que as palavras me davam.
Outra criação que fiz foi inspirada em quadrinhos. Eu sempre quis escrever e desenhar quadrinhos, mas nunca tive disciplina pra aprender a desenhar para isso, então fiquei um tempo bolando uma história maneira e pensando em como poderia ilustrar isso... e como a tatuagem é algo do meu cotidiano, me inspirei na estética old school de tatuagem. Assim, "Elias só navega sozinho" surgiu.
Também teve, no mês de abril, a temática "Carimbos". E foi interessante, pois nas últimas semanas eu vinha tirando uma pira exatamente com isso. Eu fiz uma lâmina com prego e um lápis velho e comecei a esculpir formas em borracha escolar. Aproveite que tenho uma almofada de tinta em casa e fiquei carimbando e testando coisas. Quando vi esse tema fiquei animado, pois foi uma oportunidade de transformar a bagunça que eu estava fazendo em algo mais organizado e visual.
Por fim, fiz uma zine há alguns dias. Estava navegando na nostalgia do Tumblr e vendo repostagens, tipo, de 2011. Então coletei algumas e fiz uma pequena montagem chamada "Old But Tumblr". Depois eu faço um post sobre ela, quero falar mais do Tumblr também.
Todas as zines que mencionei e outras também estão disponíveis para leitura na Biblioteca de Zines. Você pode ler, baixar, imprimir. Mas, também pretendo criar um página de portfolio—preciso criar meu portfolio de artes visuais aqui, e colocar elas lá em breve.
Sobre coisas digitais
Estou parado um pouco com criações no digital, ou pelo menos estava. Em abril eu publiquei um novo jogo no itchio chamado "YAKEMY", um RPG solo de diário—aqui tem uma zine que eu fiz que explica o que são e como jogar esse tipo de jogo, é bem legal. Ele se passa em um futuro cyberpunk onde você é um patcher, como um médico, que faz upgrades de cyberwares em clientes duvidosos. Eu vou deixar o link aqui pra quem quiser ver mais (em breve pretendo disponibilizar uma versão que português também).
Eu não sou muito fã de Mondrian, mas acho a ideia de trabalhar com formas simples e cores algo bem legal. Num dia desses, estudando Javascript, criei um projeto pequeno em p5js chamado "Chocolate". É algo bem simples, uma experimentação na real, onde vários quadrados e retângulos são gerados e rearrajados aleatoriamente em um canva com cores inspiradas em chocolate. É isso rsrs. Vou deixar aqui pra quem quiser dar uma olhada, explorar o código ou também printar pra usar as imagens.
E, por fim, navegado recentemente no Pinterest—só agora—notei a função de colagem que está disponível lá. E é muito interessante ver como ela funciona, pois você basicamente pode recortar elementos de qualquer imagem disponível e juntar em um canva de maneira louca e criativa. Gostei muito disso, pois o Pinterest é um moodbard incrível e isso dá um estímulo massa pra fazer algo além de só ficar pinando, sem falar que criar colagem digital é maneiro demais. Eu fiquei pensando só na questão "legal" dessas criações, pois apesar de você estar criando algo a partir de recorte, fazendo essa distinação do original, imagino que quem detém direitos sobre a obra ainda possa contestar o uso... na própria plataforma isso fica meio nebuloso.
Seja como flor, eu tô usando e criando, e pretendo fazer uma série de peças. Comecei a assistir Serial Experiments Lain (1998) do Yoshitoshi Abe, e a estética me pegou demais. Então decidi a investigar um pouco o que dá pra criar inspirado nesse diálogo entre humanidade, consumo e rede. Vamos ver onde vai dar.
Sobre outras coisas
Antes de partir, queria dizer que estou ansioso pra finalizar um filme no qual venho trabalhando há alguns meses. Ele é um machinima feito com Grand Theft Auto: San Andreas (2004), onde eu exploro o glitch e um pouco da frustração contemporânea da identidade fragmentada. O vídeo está pronto, na real só falta eu inserir a narração e a trilha... mas ainda não encontrei a trilha certo. Logo eu publico ele.
Acho que é isso. Vou tentar postar com mais frequência pra que os projetos possam ficar mais organizados e também eu possa registrar os processos de forma mais efetiva. Mas como eu estava meio off, imaginei que esse compilado fosse uma boa forma de compartilhar tudo.
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